O meu carro não era grande coisa, mas servia para o seu principal propósito: dar carona para as minhas amigas. “Amigas”. Eu sempre queria algo a mais, que dúvida, e dessa vez não era diferente. Eu peguei a Dani em casa e, puta que pariu, como ela tava gata. Quando ela entrou no carro, tudo que eu conseguia pensar era como ela cheirava bem, como eu queria que, quando voltasse pra casa, sentisse aquele perfume na minha pele, depois de tê-la beijado a noite inteira e, quem sabe, fazer algo além. A gente não conversou muito no carro, o trajeto era curto, eu nunca sabia o que dizer e ela também não ajudava puxando papo.
Não sou muito de sair, prefiro ficar em casa jogando Playstation 3, mas não pude recusar o convite da Dani, mesmo podendo ter sido com segundas intenções: ganhar uma carona minha. Foda-se, eu podia pelo menos ver aquele decote por algum tempo. O ruim era pagar vinte e cinco reais pra entrar, podia ficar em casa comendo que me divertiria mais, mas como eu estava na companhia dela, mascarei minha cara de “me obrigaram a vir, preferia estar em outro lugar’” e tentei aproveitar a música alta. O Mog era uma balada onde tocava de tudo, principalmente festas dessas alternativas, onde todo mundo finge gostar de bandas que conheceu há segundos atrás. De vez em quando tocava alguma coisa que todo mundo curtia, o que fazia todos cantarem adoidados, mas não era muito frequente. Não tardou e a Dani encontrou umas amigas que eu nem conhecia. Feito. Começou a tocar Lady Gaga, a Daniela conversava com elas e nem se deu ao trabalho de me apresentar. Uma pessoa completamente bêbada dançava loucamente, o que me fez sentir um pouco de vergonha, mas me lembrou que era noite com dose dupla de whisky.
Pensei em beber, mas desisti. Não queria pegar blitz e acabar sem minha carteira e meu carro. Comprei uma água e quando voltei, tentei chegar perto dela pra dizer alguma coisa, mas ela nem olhou pra mim, parece que ela não via uma das amigas há um tempão. Entre a música alta, consigo escutar um pouco do que elas conversavam:
- Eu sei, mas eu tenho ciúmes ainda, sabe? - a Dani falava.
- Ai Dani, tu sabe que tu é muito mais bonita que qualquer…
Nem quis tentar escutar o resto. Caralho, agora sim tenho certeza que ela só me chamou pela carona. Mudo a minha cara de “estou curtindo muito essa festa, uhul, olha como eu to bêbado” para “oba, a menina que eu curto ainda gosta do ex, 100 pontos pra mim”. Agora era só torcer pra ela não me ver triste, tenho que me esforçar pra manter a pose de foda. Tarde de mais.
- Márcio, tá tudo bem? Cê tava todo animado antes e agora ta aí, cabisbaixo… – ela disse ao se virar pra mim e pegar no meu ombro. Eu olho para a mão dela, sigo o caminho da ponta dos dedos até o pescoço, branquinho, pronto pra alguns beijos, aí olho pra boca, com o batom rosado, passo pelo nariz e termino nos olhos. Tudo que consigo pensar é “que gata”, e respondo com a maior sinceridade:
- Nada, nada. Tô viajando aqui na música. Meio triste né?
Ela ri.
- Triste?
- Sim, triste. Que banda é?
- É The All American Rejects, sou bem fanática. – ela ri.
Eu já tinha ouvido falar, um monte de gente já tinha me indicado, mas eu sempre deixava pra baixar depois. Agora é correr atrás do prejuízo e baixar a discografia assim que eu chegar em casa. Quem sabe eles não fazem um show lá em São Paulo e eu vou com ela? Aí eu também teria algo a mais pra conversar, menos minutos de silêncio constrangedor pra nós dois. Ela se virou e eu pude olhar pra bunda dela. Espero que ela não olhe pra mim agora, porque eu tô com a cara mais imbecil da história, imaginando ela pelada, depois te beijando, chego até a fechar os olhos e, quando abro, olho de novo pra bunda que… já tinha saído da minha frente, agora eu olho pra bunda de um gay que dançava freneticamente. Provavelmente era o mesmo que dançava Lady Gaga antes, que merda.
Depois dessa decepção, procuro por ela e a encontro encostada na parede, ainda conversando com a amiga. Caminho até ali e jogo minha garrafa d’água no chão, encostando na sua mão sem querer. Num impulso idiota, pego na mão dela e olho para o anel, que estranhamente combinava com o esmalte:
- Anel combinando com o esmalte, que fashionista. – Porra, o que eu fui dizer?
A amiga dela, que agora descobrira que o nome era Jordana, solta uma risada incontrolável e lança minha sentença de morte:
- Seu amigo é bem viado né? Pra notar o esmalte!
A Dani ri e concorda. Ótimo. As risadas me deixam cada vez mais constrangido e não sei mais onde enfiar minha cabeça.
- Ah, eu vou ali comprar mais uma água, já volto. – Sem jeito, digo querendo fugir.
Agora, além de “caroneiro”, virei bixa. No caminho do bar, paro pra checar meu celular: nenhuma mention no twitter, nenhuma mensagem, nada no whats app, ninguém comentou na minha foto no instagram. Quando levanto minha cabeça, vejo a Letícia comprando alguma coisa no bar. Ela usava um vestidinho desses “de verão”, aqueles que são curtos, mas não o suficiente pra te chamarem de vadia, mas que já fazem um estrago. Agora eu já podia esquecer a Dani e investir nela, eu tava apaixonado de novo. De cara, fingi não tê-la visto, e fui comprar minha água. Assim que me virei, dando às costas ao balcão do bar, ela me aborda e diz:
- Oi Márcio! Quanto tempo!
Ela me cumprimenta com um beijo na bochecha, que vontade de virar um pouco o rosto e “sem querer” beijar-lhe os lábios, mas não faço nada.
- Eaí, pois é né, mó tempão que a gente não se vê.
- Sim, tava com saudades! Tu chegou faz tempo?
Eu olho pro celular pra ver que horas eram, mas esqueço de olhar pro relógio, porra, como ela cheirava bem.
- Ah, eu cheguei umas 10 horas, mas tava lá fora.
- Você fuma?
- Não. Não curto o gosto que fica na boca.
Eu sou um idiota, ela fuma, provavelmente vai ir pra área de fumantes e agora eu não posso dizer que fumo, só de pensar quantas vezes eu já fumei e não me importei com a porra do cheiro do cigarro me dá vontade de me matar.
- Ah, então eu vou ali fumar um cigarro e depois a gente se vê! Tchau!
Nem deu tempo de eu me despedir, me resta agora pensar em alguma coisa engraçada pra dizer quando chegar em casa, tentar conversar sobre qualquer coisa. Resolvo voltar até a Dani, ver se consigo correr atrás do prejuízo. De longe vejo que ela conversava com um cara, era só o que me faltava. Saio por cinco minutos, só pra comprar uma água, não paro de pensar nela e, quando volto, já tem um abutre em cima da carniça. E que carniça. A minha única esperança é que ele seja gay, aí eu tô no jogo de novo. Vou me aproximando e olhando pro corte de cabelo dele e fazendo um cálculo pra ver se ele é gay: tênis da Osklen, é gay; Camiseta da Abercrombie, não é; Cabelo curtinho dos lados e mais comprido em cima, é gay; Redbull em cima do copo de vodka, não é; Calça da Cavalera, sei lá, eu tenho uma e não sou gay, aquela bicha dançando Lady Gaga usava uma e era puto; até que eu chego bem perto e a Dani, animada, me apresenta a ele:
- Márcio, esse é o Murilo, o Mu que eu tanto te falo!
Pronto, é gay. Olha o apelido do cara? “Mu”. Mais viado não existe. A última prova é o aperto de mão:
- Oiiiiiiiii – ele diz enquanto aperta a minha mão mole, e eu aperto firmemente pra expor minha masculinidade.
- Ow Dani, onde foi a sua amiga?
- Não sei, ela tava aqui e sumiu do nada! – ela diz, enquanto passa a mão por seus cabelos.
Os cabelos dela eram lindos, e tudo que eu penso é em como ela é bonita e como eu quero estar com ela. Eu suspiro e solto uma risada idiota, que faz ela me olhar com uma cara de “que merda foi essa?”. Agora ela provavelmente está se perguntando se eu sou gay, lembro de todas as vezes que me perguntaram isso, até que eu começo a duvidar da minha masculinidade, bebo um gole da água e olho para os peitos dela, imagino-a sem sutiã, rio de novo lembrando que ela deve estar pensando que eu sou gay. Bebo mais um pouco de água e desisto da ideia dela achar que eu sou gay, porque eu sei que não sou e não preciso fazer nada pra provar. Olho pra mão dela, me dá uma puta vontade de sentir a pele, colocar perto do meu rosto, dar pequenos beijos. Encosto nela bem rápido, como se fosse sem querer, ela não faz nada. Olho pro sapato dela e imagino ela se arrumando pra sair, se ela se arrumou pra mim ou pra um cara qualquer. Penso em algo legal pra dizer, mas ela me interrompe:
- Peraí, já volto.
Concordo com a cabeça e vejo ela andando pra longe. Fico um pouco angustiado, porque não sei o que dizer pra ela e penso nas vezes que já beijei outra menina mas não consigo lembrar nada que tenha dito naquelas vezes que possa me ajudar agora. Imagino o que ela possa estar fazendo no banheiro, mas sou interrompido por um pensamento: “Véio, deixa a mina mijar em paz”. Tento pensar em outra coisa, procuro alguma coisa legal pra dizer, dou uma olhada no twitter pra ver o que as outras pessoas estão conversando agora, até que ela chega e, no instinto, pergunto:
- Eaí, como tá lá na sua cidade?
- Não sei, faz tempo que eu não vou pra lá – ela responde rapidamente.
Eu penso: “Sim, eu sei. E te stalkeio todos os dias”, mas digo:
- Hnm, mesmo?
- Uhum. – ela respondeu, seca.
Nossa conversa ficou morta agora, eu tento puxar assunto, ela responde e logo não temos mais o que conversar.
- Cê viu o novo de How I Met Your Mother?
- Não vi, eu parei na terceira temporada.
Eu rio, e, não sei porque, respondo:
- Eu também não, nunca assisti. Mas me falaram que ta mó legal.
Imbecil. Eu sou um imbecil. Bebo um pouco de água e ganho uma força, não sei da onde, pra dizer algo estranho, mas sincero:
- Você é muito gata, mas eu não consigo chegar em você.
Ah, que alívio. Mas logo fico com vontade de chorar, porra, o que eu fui dizer? Ela faz uma cara que eu não consigo decifrar o que quer dizer, mas parece ser “é uma pena”. Encaro isso como uma provocação, como se ela quisesse dizer: “Véi, eu tô afim de você mas não vou te agarrar porque não sou esse tipo de menina”. Digo:
- Eu sou um merda.
Ela ri e diz:
- Você é um fofo.
É, mas ser fofo não me faz comer ninguém.
- Eu gosto de você. – ela diz enquanto olha diretamente pros meus olhos, que me matar.
“Véi, mandei bem”, penso enquanto chego perto dela e a beijo, sinto um gosto de vodka na língua dela, foda-se que ela esteja bêbada, oque importa é que eu tô pegando, e que ela beija bem pra caralho. Ela morde meu lábio, eu mordo de volta o dela, ela põe a mão no meu pescoço e passa as unhas levemente, deixando um rastro quase invisível que me fez arrepiar. Com as mãos nos cabelos dela, penso em quanto tempo ela fica se arrumando sendo que ela ficaria linda mesmo se viesse sem passar horas no salão de beleza. Me pergunto se ela está gostando disso tanto quanto eu, mas logo esqueço isso, porquê me vejo pensando em nós dois morando em Sydney com dois filhos, imagino ela dormindo com o corpo apoiado no meu corpo. Assustado com a linha de pensamento que tinha, a beijo na bochecha, ela retribui com um beijo próximo aos lábios. Olho pros peitos dela e penso: “Porra, como eu sou tarado”.
shika FINAL
O meu carro não era grande coisa, mas servia para o seu principal propósito: dar carona para as minhas amigas. “Amigas”. Eu sempre queria algo a mais, que dúvida, e dessa vez não era diferente. Eu peguei a Dani em casa e, puta que pariu, como ela tava gata. Quando ela entrou no carro, tudo que eu conseguia pensar era como ela cheirava bem, como eu queria que, quando voltasse pra casa, sentisse aquele perfume na minha pele, depois de tê-la beijado a noite inteira e, quem sabe, fazer algo além. A gente não conversou muito no carro, o trajeto era curto, eu nunca sabia o que dizer e ela também não ajudava puxando papo.
Não sou muito de sair, prefiro ficar em casa jogando Playstation 3, mas não pude recusar o convite da Dani, mesmo podendo ter sido com segundas intenções: ganhar uma carona minha. Foda-se, eu podia pelo menos ver aquele decote por algum tempo. O ruim era pagar vinte e cinco reais pra entrar, podia ficar em casa comendo que me divertiria mais, mas como eu estava na companhia dela, mascarei minha cara de “me obrigaram a vir, preferia estar em outro lugar’” e tentei aproveitar a música alta. O Mog era uma balada onde tocava de tudo, principalmente festas dessas alternativas, onde todo mundo finge gostar de bandas que conheceu há segundos atrás. De vez em quando tocava alguma coisa que todo mundo curtia, o que fazia todos cantarem adoidados, mas não era muito frequente. Não tardou e a Dani encontrou umas amigas que eu nem conhecia. Feito. Começou a tocar Lady Gaga, a Daniela conversava com elas e nem se deu ao trabalho de me apresentar. Uma pessoa completamente bêbada dançava loucamente, o que me fez sentir um pouco de vergonha, mas me lembrou que era noite com dose dupla de whisky.
Pensei em beber, mas desisti. Não queria pegar blitz e acabar sem minha carteira e meu carro. Comprei uma água e quando voltei, tentei chegar perto dela pra dizer alguma coisa, mas ela nem olhou pra mim, parece que ela não via uma das amigas há um tempão. Entre a música alta, consigo escutar um pouco do que elas conversavam:
- Eu sei, mas eu tenho ciúmes ainda, sabe? - a Dani falava.
- Ai Dani, tu sabe que tu é muito mais bonita que qualquer…
Nem quis tentar escutar o resto. Caralho, agora sim tenho certeza que ela só me chamou pela carona. Mudo a minha cara de “estou curtindo muito essa festa, uhul, olha como eu to bêbado” para “oba, a menina que eu curto ainda gosta do ex, 100 pontos pra mim”. Agora era só torcer pra ela não me ver triste, tenho que me esforçar pra manter a pose de foda. Tarde de mais.
- Márcio, tá tudo bem? Cê tava todo animado antes e agora ta aí, cabisbaixo… – ela disse ao se virar pra mim e pegar no meu ombro. Eu olho para a mão dela, sigo o caminho da ponta dos dedos até o pescoço, branquinho, pronto pra alguns beijos, aí olho pra boca, com o batom rosado, passo pelo nariz e termino nos olhos. Tudo que consigo pensar é “que gata”, e respondo com a maior sinceridade:
- Nada, nada. Tô viajando aqui na música. Meio triste né?
Ela ri.
- Triste?
- Sim, triste. Que banda é?
- É The All American Rejects, sou bem fanática. – ela ri.
Eu já tinha ouvido falar, um monte de gente já tinha me indicado, mas eu sempre deixava pra baixar depois. Agora é correr atrás do prejuízo e baixar a discografia assim que eu chegar em casa. Quem sabe eles não fazem um show aqui em São Paulo e eu vou com ela? Aí eu também teria algo a mais pra conversar, menos minutos de silêncio constrangedor pra nós dois. Ela se virou e eu pude olhar pra bunda dela. Espero que ela não olhe pra mim agora, porque eu tô com a cara mais imbecil da história, imaginando ela pelada, depois te beijando, chego até a fechar os olhos e, quando abro, olho de novo pra bunda que… já tinha saído da minha frente, agora eu olho pra bunda de um gay que dançava freneticamente. Provavelmente era o mesmo que dançava Lady Gaga antes, que merda.
Depois dessa decepção, procuro por ela e a encontro encostada na parede, ainda conversando com a amiga. Caminho até ali e jogo minha garrafa d’água no chão, encostando na sua mão sem querer. Num impulso idiota, pego na mão dela e olho para o anel, que estranhamente combinava com o esmalte:
- Anel combinando com o esmalte, que fashionista. – Porra, o que eu fui dizer?
A amiga dela, que agora descobrira que o nome era Jordana, solta uma risada incontrolável e lança minha sentença de morte:
- Seu amigo é bem viado né? Pra notar o esmalte!
A Dani ri e concorda. Ótimo. As risadas me deixam cada vez mais constrangido e não sei mais onde enfiar minha cabeça.
- Ah, eu vou ali comprar mais uma água, já volto. – Sem jeito, digo querendo fugir.
Agora, além de “caroneiro”, virei bixa. No caminho do bar, paro pra checar meu celular: nenhuma mention no twitter, nenhuma mensagem, nada no whats app, ninguém comentou na minha foto no instagram. Quando levanto minha cabeça, vejo a Letícia comprando alguma coisa no bar. Ela usava um vestidinho desses “de verão”, aqueles que são curtos, mas não o suficiente pra te chamarem de vadia, mas que já fazem um estrago. Agora eu já podia esquecer a Dani e investir nela, eu tava apaixonado de novo. De cara, fingi não tê-la visto, e fui comprar minha água. Assim que me virei, dando às costas ao balcão do bar, ela me aborda e diz:
- Oi Márcio! Quanto tempo!
Ela me cumprimenta com um beijo na bochecha, que vontade de virar um pouco o rosto e “sem querer” beijar-lhe os lábios, mas não faço nada.
- Eaí, pois é né, mó tempão que a gente não se vê.
- Sim, tava com saudades! Tu chegou faz tempo?
Eu olho pro celular pra ver que horas eram, mas esqueço de olhar pro relógio, porra, como ela cheirava bem.
- Ah, eu cheguei umas 10 horas, mas tava lá fora.
- Você fuma?
- Não. Não curto o gosto que fica na boca.
Eu sou um idiota, ela fuma, provavelmente vai ir pra área de fumantes e agora eu não posso dizer que fumo, só de pensar quantas vezes eu já fumei e não me importei com a porra do cheiro do cigarro me dá vontade de me matar.
- Ah, então eu vou ali fumar um cigarro e depois a gente se vê! Tchau!
Nem deu tempo de eu me despedir, me resta agora pensar em alguma coisa engraçada pra dizer quando chegar em casa, tentar conversar sobre qualquer coisa. Resolvo voltar até a Dani, ver se consigo correr atrás do prejuízo. De longe vejo que ela conversava com um cara, era só o que me faltava. Saio por cinco minutos, só pra comprar uma água, não paro de pensar nela e, quando volto, já tem um abutre em cima da carniça. E que carniça. A minha única esperança é que ele seja gay, aí eu tô no jogo de novo. Vou me aproximando e olhando pro corte de cabelo dele e fazendo um cálculo pra ver se ele é gay: tênis da Osklen, é gay; Camiseta da Abercrombie, não é; Cabelo curtinho dos lados e mais comprido em cima, é gay; Redbull em cima do copo de vodka, não é; Calça da Cavalera, sei lá, eu tenho uma e não sou gay, aquela bicha dançando Lady Gaga usava uma e era puto; até que eu chego bem perto e a Dani, animada, me apresenta a ele:
- Márcio, esse é o Murilo, o Mu que eu tanto te falo!
Pronto, é gay. Olha o apelido do cara? “Mu”. Mais viado não existe. A última prova é o aperto de mão:
- Oiiiiiiiii – ele diz enquanto aperta a minha mão mole, e eu aperto firmemente pra expor minha masculinidade.
- Ow Dani, onde foi a sua amiga?
- Não sei, ela tava aqui e sumiu do nada! – ela diz, enquanto passa a mão por seus cabelos.
Os cabelos dela eram lindos, e tudo que eu penso é em como ela é bonita e como eu quero estar com ela. Eu suspiro e solto uma risada idiota, que faz ela me olhar com uma cara de “que merda foi essa?”. Agora ela provavelmente está se perguntando se eu sou gay, lembro de todas as vezes que me perguntaram isso, até que eu começo a duvidar da minha masculinidade, bebo um gole da água e olho para os peitos dela, imagino-a sem sutiã, rio de novo lembrando que ela deve estar pensando que eu sou gay. Bebo mais um pouco de água e desisto da ideia dela achar que eu sou gay, porque eu sei que não sou e não preciso fazer nada pra provar. Olho pra mão dela, me dá uma puta vontade de sentir a pele, colocar perto do meu rosto, dar pequenos beijos. Encosto nela bem rápido, como se fosse sem querer, ela não faz nada. Olho pro sapato dela e imagino ela se arrumando pra sair, se ela se arrumou pra mim ou pra um cara qualquer. Penso em algo legal pra dizer, mas ela me interrompe:
- Peraí, já volto.
Concordo com a cabeça e vejo ela andando pra longe. Fico um pouco angustiado, porque não sei o que dizer pra ela e penso nas vezes que já beijei outra menina mas não consigo lembrar nada que tenha dito naquelas vezes que possa me ajudar agora. Imagino o que ela possa estar fazendo no banheiro, mas sou interrompido por um pensamento: “Véio, deixa a mina mijar em paz”. Tento pensar em outra coisa, procuro alguma coisa legal pra dizer, dou uma olhada no twitter pra ver o que as outras pessoas estão conversando agora, até que ela chega e, no instinto, pergunto:
- Eaí, como tá lá em Campinas?
- Não sei, faz tempo que eu não vou pra lá – ela responde rapidamente.
Eu penso: “Sim, eu sei. E te stalkeio todos os dias”, mas digo:
- Hnm, mesmo?
- Uhum. – ela respondeu, seca.
Nossa conversa ficou morta agora, eu tento puxar assunto, ela responde e logo não temos mais o que conversar.
- Cê viu o novo de How I Met Your Mother?
- Não vi, eu parei na terceira temporada.
Eu rio, e, não sei porque, respondo:
- Eu também não, nunca assisti. Mas me falaram que ta mó legal.
Imbecil. Eu sou um imbecil. Bebo um pouco de água e ganho uma força, não sei da onde, pra dizer algo estranho, mas sincero:
- Você é muito gata, mas eu não consigo chegar em você.
Ah, que alívio. Mas logo fico com vontade de chorar, porra, o que eu fui dizer? Ela faz uma cara que eu não consigo decifrar o que quer dizer, mas parece ser “é uma pena”. Encaro isso como uma provocação, como se ela quisesse dizer: “Véi, eu tô afim de você mas não vou te agarrar porque não sou esse tipo de menina”. Digo:
- Eu sou um merda.
Ela ri e diz:
- Você é um fofo.
É, mas ser fofo não me faz comer ninguém.
- Eu gosto de você. – ela diz enquanto olha diretamente pros meus olhos, que me matar.
“Véi, mandei bem”, penso enquanto chego perto dela e a beijo, sinto um gosto de vodka na língua dela, foda-se que ela esteja bêbada, oque importa é que eu tô pegando, e que ela beija bem pra caralho. Ela morde meu lábio, eu mordo de volta o dela, ela põe a mão no meu pescoço e passa as unhas levemente, deixando um rastro quase invisível que me fez arrepiar. Com as mãos nos cabelos dela, penso em quanto tempo ela fica se arrumando sendo que ela ficaria linda mesmo se viesse sem passar horas no salão de beleza. Me pergunto se ela está gostando disso tanto quanto eu, mas logo esqueço isso, porquê me vejo pensando em nós dois morando em Sydney com dois filhos, imagino ela dormindo com o corpo apoiado no meu corpo. Assustado com a linha de pensamento que tinha, a beijo na bochecha, ela retribui com um beijo próximo aos lábios. Olho pros peitos dela e penso: “Porra, como eu sou tarado”.
13
Foi no ônibus voltando pra casa, depois de passar meu primeiro dia, no meu primeiro emprego depois de formado que eu me dei o direito de pensar sobre estas coisas de novo. Antes mesmo de embarcar, notei aquele grupo de pré-adolescentes, com seus 12-13 anos, segurando uma garrafa meio-vazia de Coca Cola 2 litros, esperando o transporte público. Eram três, uma guria e dois guris. Ela cantava, com voz virginal, uma musiquinha que ironizava o amor, enquanto os outros dois tentavam acompanhá-la, cantando os últimos versos de rimas fracas.
Vi meu ônibus chegando e, enquanto me dirigia até o local que esperava que ele parasse, torcia para que fosse o mesmo que o deles. Me adiantei e subi os degraus, sem olhar para trás, sem mostrar que eu esperava que eles fizessem o mesmo. Segui pelo corredor estreito, obstinado, tentando escutar por entre os barulhos à minha volta, aquela mesma voz que, não a mim, mas àqueles meninos, parecia representar tanto.
Foi quando eu já sentava que voltei a escutá-la:
- Três passagens, por favor. – ela disse ao cobrador, ao mesmo tempo que alcançava uma nota amarela de 20 reais.
Os dois, um com um nariz grande e cabelos mau-cortados, e o outro com um rosto mais harmônico, mas que vestia roupas claramente escolhidas por sua mãe, acompanhavam a menina, rindo, enquanto ela guiava o caminho. Não me surpreendi quando, ao passar por todos os bancos já ocupados, os três se puseram quase que em fila indiana em frente a mim.
Ela, com sua camiseta de rock genérica, o meio que bonitinho logo a seguir e o narigudo, quase que esquecido atrás. Sem perder tempo, peguei três folhas brancas e comecei a escrever essas linhas, enquanto notava que ela me encarava. Talvez tivesse percebido que eu prestava atenção nos três, e não entendia o que eu fazia equilibrando a pasta branca e folhas em meu colo. Ao mesmo tempo que escrevia, espiava os seus movimentos com o canto dos olhos.
O narigudo fazia palhaçadas, se pendurava sob o apoio para os braços, chamando atenção; o outro ria; e, os dois, não da mesma forma que eu, espiavam os movimentos dela enquanto fingiam fazer essas outras coisas. Ela tinha o cabelo bagunçado, não sujo, mas sem pentear, preso em um rabo de cavalo indisciplinado. Seu rosto era marcado por espinhas, não de uma forma grotesca, mas evidenciando o uso de algum tratamento como o com Racutan, talvez. Vestia clássicos converse pretos com jeans azuis, e a camiseta, também preta, escondia seus seios, que não posso dizer que estavam em formação, pois já tinham considerável tamanho, mas que o sutiã largo deixava claro sua falta de conhecimento do poder que aquelas duas coisas tinham sobre os dois corpos cheios de hormônios que a acompanhavam.
Dava pra notar que os dois ainda não levavam o mínimo jeito com as mulheres. Não sabiam o que fazer, muito menos o que dizer, por isso agiam daquela forma desengonçada, como macacos tentando impressionar a única fêmea do bando. Mulher, provavelmente, única em seu círculo de amizades.
Ela não percebia sua influência, ou ao menos fingia não perceber. Se percebia, se fazia de louca, como se tirasse proveito da situação. Cada movimento seu parecia calculado para levar a imaginação daqueles dois às alturas. Em alguns meses, se já não ocorrido, os meninos confessariam um ao outro sua paixão pela amiga. Ou então, um contaria e o outro se calaria, em prol da amizade. Esse seria, provavelmente, o narigudo, ciente de que não poderia competir com a potencial beleza que o rosto do amigo apresentava.
Dizia a eles, com sua voz um tanto quanto doce, coisas que eu não escutava, mas notava que, de vez em quando, ela espiava se eu ainda estava por ali. Falavam banalidades, como em uma competição para ver quem detinha a atenção dela. Foi nesse momento que eu, distraído, percebi que meu destino chegava. Apressado, juntei essas folhas brancas sobre a pasta que usava como apoio e, com a outra mão, segurava minha mochila.
Passando por entre os três, bati a cabeça no marco da porta em quanto descia do ônibus, sem olhar para trás, com um pouco de vergonha e tentando me concentrar para parecer ocupado. Fiquei em pé, assim que desci, escrevendo estas últimas linhas, enquanto tentava lembrar da primeira vez que senti aquilo que os dois pequenos amantes pareciam sentir, ou então quando fora a última.
Vi em um filme, nos últimos dias, uma mulher dizendo que a amizade entre homens e mulheres vira algo muito esquisito depois dos 13 anos, e é verdade. Era exatamente aquilo que senti que acontecia entre os três. Talvez ela não sentisse o mesmo por nenhum dos dois, mas acredito que nem ela sabia ainda o que pensava sobre aquilo tudo. Se um deles se declarasse, o que acredito veemente que irá acontecer em um futuro próximo, ela entenderia o que acontecia e a finalmente entenderia. Não sei, todo o meu envolvimento naquelas vidas se resumiu ao papel de um espectador que foi presenteado com sentimentos nostálgicos a partir daqueles instantes.
Revirei minha memória, tentava lembrar de todos os rostos femininos que eu já havia entrado em contato, de todas as amigas que já tive, de todas as vezes que eu me hipnotizei com os gestos de alguma delas, das noites que passei acordado, das confissões que fiz com os amigos mais próximos. Um tempo que, por menos saudosista que meus 23 anos me permitam ser, fazia falta. Com meus problemas resumidos a provas e alguns trabalhos a fazer, cuidar da irmã mais nova enquanto meus pais estavam viajando, administrar a mesada entre álbuns de figurinhas e doces, ou então tremer as pernas ao declarar minhas paixonites por alguma menina.
Eu continuei pensando assim, até que, ao virar uma esquina qualquer, no bolso de trás de minha calça, senti meu celular vibrando. Ao pegá-lo, sem pressa, e ler o que dizia na tela; 1 nova mensagem: Carol; abri um tímido sorriso e, como aqueles dois garotos de mais cedo, me senti com treze anos novamente.
things that’ve been on my head the last few days
still-life
encontros e desencontros
short-movie #1
something will come out of this.